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Oh no! Books!

Livros, fotografia e viagens. (na verdade, é quase só livros)

Oh no! Books!

Livros, fotografia e viagens. (na verdade, é quase só livros)

Opinião: This House is Haunted — John Boyne

Uma novela gótica, uma mansão com fantasmas e uma protagonista que não quer desistir facilmente. 

Este livro começou por-me parecer bastante fraquinho… Os elementos “assustadores” pareciam todos muito forçados e faltava-lhes profundidade para serem minimamente credíveis. Vi-me a revirar os olhos e a pensar se devia desistir.

Mas quando entramos na casa, a coisa melhorou bastante. Parece que o autor sabia a história que queria contar — só teve dificuldades em criar a introdução.

This House is haunted, John Boyne.jpg

Temos uma história típica de ama que toma conta de crianças numa casa pouco convidativa — muito parecida com A Volta no Parafuso de Henry James, mas ainda bem que o autor mudou o rumo (não me parece que conseguisse competir com A Volta no Parafuso).

Temos fantasmas, uns mais simpáticos que outros e temos uma vila inteira que olha para a mansão e para os seus habitantes apenas de longe. Uma atmosfera muito bem trabalhada, com imensos detalhes que ajudam a tornar tudo real. 

Não é das melhores histórias de fantasmas que já li, mas leu-se bem e fez-me companhia durante uns dias. E aquela capa? 😱

Já leram? Este ou outro do autor?

Opinião: The Last House on Needless Street — Catriona Ward

The Last House on Needless Street.JPG

Múltiplos pontos de vista, todos eles pouco confiáveis. É uma história que está sempre a mudar. Começamos por achar uma coisa, depois mudamos e depois continuamos a mudar pelo livro todo. É sempre uma viagem incerta e nunca sabemos bem onde estamos. O final é surpreendente e tem um ângulo totalmente diferente do que estava à espera — pela positiva.

Agora, erro meu, este livro não é aquilo que achava que era. Estava à espera de uma história atmosférica de uma casa cheia de mistérios e não é nada disso. Não pesquisei muito para evitar spoilers e pronto 😅

Este livro é um thriller focado em crime. Acho que quem gostar do género, vai gostar bastante — é muito rico, nada linear ou básico. Agarra-nos facilmente e vão lê-lo num instante.

Amantes do género, partilhem a vossa opinião. Vale o hype que tem tido?

 

Opinião: Entrevista com o Vampiro — Anne Rice

Bem, posso começar por dizer que este livro não foi nada daquilo que estava à espera? Vamos começar por aí então. 

Entrevista com o Vampiro — Anne Rice.jpeg

Li há pouco tempo o Salem’s Lot do Stephen King e depois percebi que nunca tinha lido aquele que foi considerado o livro que mudou as histórias de vampiros — resolvi corrigir isso. 

Fui, obviamente, à espera de uma história de vampiros. Aquele que nos contam o que os vampiros (bons ou maus depende do autor) andam a fazer. Provável também teria uns humanos bons a tentarem caçar os vampiros. Mas não foi nada disso. 

 

Esta história é de vampiros, mas podia ser de outra coisa qualquer, desde que moralmente duvidosa. O foco aqui não são os vampiros a caçar os humanos, mas sim o dilema moral de um dos vampiros e a forma como ele se relaciona com os outros vampiros. 

 

Anne Rice mostra-nos que, mesmo da espécie vampiro (😅 gosto de dizer "espécie vampiro" como se fosse uma coisa a sério) há vários tipos de vampiros, tal como acontece com os humanos. 

 

Há os vampiros que são ”bons”, que preferem não matar humanos (mas talvez o façam), há os vampiros maus, que adoram matar humanos porque gostam da sensação que têm e também há os cruéis, que gostam de crueldade só porque sim. Cada vampiro é um vampiro, como cada humano é um humano. E é esta representação que foi fresca nesta história. 

 

Foi com Entrevista com o Vampiro que Anne Rice trouxe uma nova dimensão a estes seres sobrenaturais. Foi aqui que os vampiros deixaram de ser algo selvagem e motivado apenas pelo ato de trincar humanos para passarem a ser seres conscientes, com princípios morais, cultos e até com elevados padrões. 

 

Apesar de existirem alguns momentos que me deixaram desconfortável, gostei muito de ler este livro. Apesar desta perspectiva já não ser nova, ou seja, já é standard os vampiros terem um comportamento tão complexo como o humano, gostei de ver onde nasceu.

 

Já leram? O que gostaram mais? Têm outros livros com vampiros para me recomendar? 🧛‍♀️

 

Opinião: Tokyo Ueno Station — Yu Miri

Um fantasma que nos conta a história de quando era vivo. Não fiquem de pé atrás com o fantasma, não há nada de fantástico nesta história, pelo contrário. 

 

Tokyo Ueno Station de Yu Miri é uma representação da sociedade japonesa que começa em 1933 e segue até aos dias de hoje. Seguimos a vida de um homem, Kazu, e das suas relações com a família e com as outras pessoas com quem se cruza. Enquanto fantasma, Kazu tem um ponto de vista único, tão depressa estamos a relembrar a sua vida, como estamos a observar as pessoas, estranhos, que fazem a sua vida na estação e no parque que Kazu habitua.

Tokyo Ueno Station Oh no Books.jpeg

É um retrato muito despretensioso da vida de Kazu e da sociedade onde está inserido. Kazu é, era, pobre. Vivia longe da família para a suportar e, além da pobreza, Kazu tinha muito azar na vida.  

“I was never home, because I was away working, so I didn’t take any pictures of the children. I never had my own camera either.”

Não pensem que é uma lamúria constante, porque não é e é aí que está o verdadeiro impacto desta história. Yu Miri conta-nos esta história de uma forma quase estéril. Kazu, tal como milhares de outros na mesma situação, aceita a sua vida. Aceita as suas dificuldades e faz o que tem que fazer, da melhor maneira que consegue. E, quando não consegue, aceita também. É um distanciamento que nos deixa, um pouco, assustados e desolados com a realidade da vida.

“I would have liked to exchange a glance with someone, anyone, even a sparrow. (…) but there is no broom, no shovel, and nobody, nobody, nobody…”

Um solidão dilacerante. Não apenas do nosso protagonista, mas da sociedade, das pessoas. Breves ligações, de hábitos, quando todos anseiam por mais. Também conhecemos a crueldade, aquele que existe todos os dias e que nós, educadamente, viramos o rosto.

“I hear a listless sort of screeching.

Possibly the first cicadas of the year.

Could be a Kaempfer cicada…

Or maybe it’s not a cicada, maybe it’s a katydid or something else…” 

A narrativa é frequentemente interrompida por reparos, por sons e imagens, ajudando a tornar tudo muito mais real. Mergulhamos na voz de Kazu e quando ele repara em algo e interrompe a história, também nós reparamos. Vemos com os seus olhos e sentimo-nos, mesmo, como se o fantasma fossemos nós.

Tokyo Ueno Station interior.jpeg

Há muito, muito mais para dizer sobre este livro. Um crítica ao sistema imperial do Japão, à guerra, aos jogos olímpicos. Onde Kazu acabou a sua vida e porquê, mas não quero contar demasiado — acho que é uma experiência que merece ser descoberta e saboreada. 

“I’m trying, I thought.

Set me free from trying, I thought.”

Só quero dizer mais um coisa: este minha opinião não faz jus a este livro. Yu Miri oferece-nos uma experiência tão diferente do habitual que tenho a certeza que me vou lembrar deste livro durante muito tempo. 

 

Que eu saiba, ainda não está editado em português, mas, se puderem, leiam em inglês. São 180 páginas de um livro minúsculo (é pouco mais alto que um telemóvel) com imenso espaçamento — é mesmo um livro pequeno.

 

Deixo só a nota que é um livro que trata de temas pesados — acho que deu para perceber 😅 Acho que os trata de uma forma leve, mas deixo o alerta.

 

Se já leram, por favor, partilhem comigo a vossa opinião. Se não leram, digam-me se contribuí para aumentar a vossa TBR 😅 (espero mesmo que sim).

Opinião: Eliete — Dulce Maria Cardoso

Uma vida normal, uma família imperfeita, um passado pesado, um emprego que paga as contas, uma amiga que só vemos de tempos a tempos mas que nos esforçamos para impressionar, uma relação com a mãe — cheia de bagagem, claro. Inseguranças, medo do futuro, arrependimento do passado, fechar os olhos para não ver o presente, solidão. Eliete tem uma vida normal, que todos nós temos, de uma forma ou de outra. 

Eliete, Dulce Maria Cardoso.jpeg

Dulce Maria Cardoso pega nesta vida que é comum e disseca-a, não deixando nada passar despercebido. Mergulhamos na vida de Eliete, tornamo-nos parte da sua pele, parte da sua mente e vemos o que ela vê. Eliete é atenta e, por isso, nós também somos. A necessidade de não contar os seus erros à amiga é mais do que um segredo, é uma necessidade primal de não admitir, para si mesma. É o querer ter algo que lhe sirva de bóia, nem que seja aos olhos da amiga que vê de vez em quando.

Contar a história de uma vida normal não é fácil, mas Dulce Maria Cardoso sabe exatamente como aprofundar as coisas banais da vida, sem que pareçam banais e, muito menos, aborrecidas.

Prende-nos às suas páginas com um sentimento de inevitabilidade à mistura. 

Nunca tinha lido Dulce Maria Cardoso, mas sei que vou querer ler muito, muito mais. Foi uma surpresa muito boa. Já comprei O Retorno e vou estar atenta à segunda parte deste vida normal. 

Já leram o Eliete ou outro da Dulce Maria Cardoso?

 

Opinião: O Mestre e Margarita — Mikhaíl Bulgákov

Peguei neste livro sem saber bem ao que ia. Sabia que era meio louco e que tinha bruxas e um gato falante. Depois descobri que tinha um baile do diabo, a história da crucificação de Jesus Nazaré, um manicómio sempre cheio e uma história de amor.

E isto é só a ponta do icebergue. 

O Mestre e  Margarita, Mikhaíl Bulgákov.jpeg

No meio de uma história com imensas histórias, temos muitas outras coisas. 

Temos exemplos do egoísmo e da ganância dos homens. Momentos onde percebemos que quem faz o bem também pode fazer o mal e que quem faz o mal também pode fazer o bem — afinal, o que é o bem e o que é o mal? Percebemos o valor da liberdade e percebemos também que conseguimos sempre seguir em frente, de uma maneira ou de outra. Percebemos também que são as histórias que perduram e que ninguém as pode verdadeiramente tirar de nós.

 

O Mestre e Margarita é uma sátira, uma comédia e um retrato. É tão rico e complexo que é muito mais do que uma coisa. Tem um ângulo cristão onde dissecamos o bem e o mal. Tem uma interpretação política onde apontamos as hipocrisias que no dia-a-dia fingimos não ver. Tem também uma visão do ser humano envolto em arte (e em falhas) onde percebemos o poder que a arte tem no nosso ser. 

 

É uma história(s) que, apesar de grande, se lê bem. A escrita é leve e divertida. Os acontecimentos são fantásticos (leia-se absurdos) e dei por mim muitas vezes a pensar “mas como é que ele se lembrou disto”. É uma abordagem diferente do que costumo ler, aqui usa-se fantasia e comédia para tocar em temas bem sérios.

 

Confesso que em alguns momentos tive dificuldades em saber quem é quem — coisa que me acontece sempre em romances russos com muitas personagens (e aqui há TANTAS). Como não me relaciono com os nomes, é difícil perceber quem é quem. Felizmente, o autor era também fã de identificar as pessoas pelas suas características, o que me permitiu sempre voltar a apanhar o fio à meada. 

 

Um livro que me fez comprar o livro físico depois de o ter lido em formato ebook. Li em inglês, mas resolvi comprar a tradução portuguesa — quero voltar a lê-lo, com mais calma, e voltar a visitar aquele mundo onde tudo acontece e onde tudo pode acontecer.

 

Já leram? Se leram em português, gostava muito de saber que tradução escolheram. Eu optei pela da Nina Guerra e do Filipe Guerra, mas gostava de saber a vossa opinião 💛

5 Livros para voltar a ler — Sugestões

Sei que, como eu, há muitos leitores por aí com dificuldade em voltar às leituras nestes tempos estranhos. Estamos fechados em casa, a repetir testes ao primeiro sintoma e pensar quando é que vamos voltar ao normal.

No meio deste cenário que não é normal, o que é normal é não sermos exatamente a pessoa que costumávamos ser. Ou porque damos prioridade a outras coisas ou porque temos a vontade, mas falta-nos a concentração. Falo por mim, que estive meses sem conseguir terminar um livro. Ainda hoje tenho uma pilha de uns oito livros junto à cama — são aqueles que comecei, mas que depois me perdi pelo meio.

Mais importante do que tudo é dar tempo ao tempo. É aceitar que temos direito a descansar, temos direito a não ter a concentração que já tivemos e temos o direito de estar o tempo que quisermos/precisarmos sem ler. Mas, para o caso de estarem com vontade de regressar às leituras, deixo-vos cinco sugestões.

Todos eles são livros fáceis de ler — essa foi a condição inicial. Depois, alguns podem ser positivos e com uma mensagem que nos faz acreditar no que está para vir, outros podem ser tão curiosos que precisamos de saber o que vem a seguir e outros ainda transportam-nos para um mundo bem mais simples que este — porque todos nós merecemos uma pausa.

Espero que algum destes seja aquele que procuram 💛

Livros para voltar a ler_Oh no Books.JPG

 

The House in the Cerulean Sea, T.J. Klune

Um funcionário público de 40 anos que percebe que nunca é tarde para mudar de vida e que está na hora de se aceitar a si mesmo e começar a viver. Podem ver a minha opinião no Instagram do Oh no! Books! Infelizmente, acho que não foi ainda publicado em português, mas quem gostar de ler em inglês tem uma história reconfortante à espera.

👉 Link Wook / Inglês (afiliado)

 

Circe, Madeline Miller

Para mim, a mitologia é sempre bem-vinda. Há qualquer coisa em deuses imperfeitos que me atrai e Circe é um excelente exemplar. Uma mulher que era diferente, mas que provou a si mesma o seu valor.

👉 Disponível em Português, link Wook (afiliado)

 

Piranesi, Susanna Clarke

Um dos meus livros preferidos de sempre. Com um toque de fantasia, é daqueles livros que cria um local onde gostamos de estar. É também bem mais do que aparenta.  Já escrevi sobre ele aqui no blog.

👉 Disponível em Português, link Wook (afiliado)

 

A Cosmology of monsters, Shaun Hamill

Um livro apresentado como "de horror", mas que de horror não tem nada. Tem monstros, sim, mas que não são assim tão assustadores. Uma história muito mais densa e rica do que estava à espera, mas que queremos acompanhar de perto. Também já escrevi sobre ele aqui no blog. Infelizmente, também não o encontrei em português.

👉 Link Wook / Inglês (afiliado)

 

Pan's Labyrinth, Guillermo Del Toro & Cornelia Funke

Para fãs de contos de fadas com um lado mais negro, o Labirinto do Fauno é baseado no filme com o mesmo nome (sim, o filme veio primeiro). Meio mágico, meio assustador, é uma viagem por um mundo encantado.

👉 Existe em português "O Labirinto do Fauno" na Fnac, por exemplo.

 

Espero que uma (ou mais) destas sugestões vos devolva o prazer da leitura 💛 Podem deixar mais sugestões ali nos comentários, são sempre bem-vindas. 💛

Opinião: O Nome do Vento — Patrick Rothfuss

O Nome do Vento.jpeg

Como já sabem, sou ávida leitora de fantasia, mas confesso que nem sempre é fácil encontrar o tipo de fantasia “certo” para mim. Como em tudo, cabe muita coisa dentro de fantasia, mas com o tempo aprendi a perceber se vou ou não gostar de um livro.

O Nome do Vento de Patrick Rothfuss é, felizmente, um dos casos em que acertei. Conheci este livro através da @portasetenta e depois de fazer alguma pesquisa (até porque ele é bem grande) achei que era capaz de gostar - e acertei. 

Não vos consigo contar muito sem spoilers, mas é um livro de fantasia bem sóbrio e realista, onde é fácil esquecer que estamos a ler fantasia - parece-me até ser uma boa introdução ao género. 

É uma história dentro de uma história onde o autor nos conta as suas aventuras que começaram enquanto ainda era apenas uma criança. Graças a este estilo de narrativa, é o livro ideal para ler por longos períodos de tempo, enquanto relaxamos no sofá. O autor construiu um mundo vasto e muito detalhado, cheio de personagens com personalidades muito bem construídas. A melhor maneira de desfrutar dele é deixarmo-nos levar e mergulhar no universo.

A história é sempre muito rica e deixa-nos com vontade de saber o que vem a seguir, mas tive momentos em que gostava que a narrativa acelerasse um bocadinho. O protagonista tem-se (na maioria dos casos) em muito boa conta e, como se fosse real, demora-se nas histórias que acha mais impactantes. Mas não pensem que é um livro aborrecido - não é! Eu é que consigo ser um pouco impaciente 😅

O Nome do Vento faz parte de uma trilogia, mas o terceiro livro ainda não foi publicado. O segundo (O Medo do Homem Sábio) foi editado em 2011, portanto já estamos há 10 anos à espera do último. Confesso que me deixa um pouco de pé atrás, mas não o suficiente para não continuar a ler. Agora vou fazer uma pausa e ler outro livro, mas vou pegar no segundo livro logo de seguida.

Se tiverem uma subscrição do Kobo Plus, tanto este como O Medo do Homem Sábio estão disponíveis ✌️

Já leram? Gostaram?

Opinião: Piranesi — Susanna Clarke

Quero muito falar-vos deste livro, porque gostei tanto dele que sei que o vou reler em breve. Muito raramente volto a ler livros - tenho tantos por ler, porquê perder tempo a ler o que já li? Mas abro exceções, normalmente em livros que são mais sensoriais e me oferecem um sítio onde posso ficar. É o caso deste. 

Piranesi, Susanna Clarke.jpeg

Piranesi, da Susanna Clarke é um livro diferente. Não esperem algo do género do Jonathan Strange & Mr Norrell. Não é. Podia ser, que eu também gostei, mas este é algo diferente. Ah, mas não é de fantasia? Perguntam vocês, fãs da dupla de mágicos, já a ficarem desesperados. Sim, é de fantasia, mas de uma fantasia mais próxima da nossa experiência.

Piranesi é um livro bonito, mas tão bonito. Conta-nos a história de Piranesi, que vive num local especial. Uma casa de tectos altos, de estátuas e de mar. Uma casa que é a única casa que o Piranesi quer. Não vos posso falar muito mais desta casa, pois a magia do livro está em ir descobrindo o que raio se está a passar. Há quem lhe chame um puzzle e sim, temos que ir juntando as peças. 

É também, com tanta pena minha, um livro pequeno. Lê-se bem, tão rápido. É que, de repente, também nós nos sentimos tão bem ali, no meio daquela casa que já conhecemos tão bem.

Sei que as minhas opiniões são sempre um bocadinho vagas, mas acredito que uma boa parte da experiência do livro está em ir descobrindo. Gosto de ler opiniões que me dizem, mais ou menos, que tipo de livro posso esperar - e é só. Cada vez mais tenho evitado ler as sinopses e procuro por reviews assim mais vagas. Acho que posso dizer que gosto de fazer com os livros o que temos que fazer com a casa de Piranesi - ir juntado as peças. 

E, se vos posso dar mais um conselho, sugiro (veementemente 😅 ) que leiam este artigo sobre a Susanna Clarke e o seu novo livro, publicado na The New Yorker. Depois pensem novamente no Piranesi, no 16 e no Outro 💛 (porque uma boa história conta sempre várias histórias).

Se quiserem ver um vídeo do livro (da linda edição de capa dura), tenho no meu Instagram, dentro do destaque “Compras”, em último lugar.

Ah! E porque lá no início vos falei em livros mais sensoriais, por favor, conheçam também a maravilhosa Erin Morgenstern - o The Night Circus costuma ter mais fãs, mas o The Starless Sea é o que tem o lugar especial no meu coração (ainda por cima ouvi ambos em audiobook 💜 ).

Se já leram, por favor, partilhem comigo a vossa opinião. Estou muito curiosa em saber se tiveram uma experiência tão boa como a minha 💓 (acabei de reparar que esta publicação tem muitos corações - eu acho que quer dizer qualquer coisa).

🛒 Podem comprar aqui em inglês.

Opinião: A Volta no Parafuso — Henry James

A Volta no Parafuso, Henry James.jpeg

Primeiro, podemos olhar para esta capa linda?

Não sei se foi por me ter salvo do suplício de ler esta obra em inglês, mas acho esta capa qualquer coisa. Além disso, tem umas margens gigantes no centro do livro, o que facilita imenso a leitura - tornou-se numa das minhas aquisições preferidas. 

Mas pronto, edições à parte, queria partilhar que comecei a ler este livro na sua versão original, em inglês. Mais propriamente, estava a ler o livro The Turning editado pela Penguin e que contém vários contos, entre eles o The Turn of the Screw a que corresponde esta tradução em português. Estava a ler em inglês e estava a sofrer imenso... Além de Henry James ser adepto de frases gigantes tão cheias de vírgulas e informações, também escreve em inglês claramente antigo (nasceu em 1843 e faleceu em 1916).

The Turning, Henry James.jpeg

Eu leio 90% em inglês, eu oiço livros em inglês, mas para conseguir compreender este livro tinha que estar super concentrada o que nunca me permitiu deixar-me levar pela leitura. No entanto, dos contos que li, gostei imenso das histórias em si e, por isso, queria muito continuar a leitura. Fui em busca de uma edição em português e foi assim que encontrei esta. Apesar da escrita continuar difícil - claro - o facto de ser na minha língua nativa ajudou imenso, a leitura ficou fluída e este tornou-se um dos meus livros preferidos.

Focando-me no conto A Volta no Parafuso, achei o conto fabuloso. Sem entrar em spoilers, o Henry James consegue aquilo que eu mais aprecio num bom conto de horror - a dúvida. Aqui  ficamos sempre na dúvida, sem saber exatamente o que é real. É a preceptora que está a ficar louca? E as crianças? Afinal, são apenas crianças ou transpiram maldade?

Henry James controla a narrativa com um ritmo perfeito. Partilha connosco a passagem do tempo e passa a inquietação para o nosso lado. A troca de poder, entre adultos e crianças, transporta-nos para um universo que não conhecemos e que nos deixa receosos. É a atmosfera, como sempre, que me convence. 

Este conto trouxe-me Shirley Jackson à memória - a dúvida, a alienação e o terror.

Recomendo muito este conto, mas deixo a nota que o inglês de Henry James não é fácil e acho que pode mesmo retirar poder à leitura. Já a edição da Relógio D'Água é linda e merece um lugar na vossa estante.

Já leram? Gostaram?

Podem comprar a edição em português aqui.

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